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A IMPORTÂNCIA DO SILENCIO

O silencio é o lugar onde reside a possibilidade do encontro e do relacionamento com o Mistério. Porque a voz, ou se preferir, o modo através do qual o Mistério se comunica só pode ser identificado no silencio. Por isso aquele que consegue a graça do silencio é um privilegiado na relação com o Mistério. Porém, ao falar de silencio neste texto, não quero trata-lo de maneira rasa, também não pretendo propor um tratado sobre o assunto, apenas desejo traze-lo à reflexão. Gostaria de ir além do que se entende por silencio naquilo que pode ser medido fisicamente, ou seja, o som. Silenciar está longe de ser entendido apenas como ausenciar-se do som ou ausência-lo de determinado ambiente. Lembro-me de um fato acontecido na minha adolescência, quando começava a sair com meus amigos, um dia fui parar no Bairro de Laranjeiras e lá me deparei com uma escola para deficientes auditivos e da fala, percebi que as pessoas estavam conversando, porém sem emitir sons, desde então reflito sobre esta questão e agora quero traze-la nesta nossa orientação anual.

 

Ao tratar aqui a questão do silencio, desejo chamar atenção para o fato de que, mesmo quando não emitimos sons, mesmo quando não há nenhum tipo de ruído ao nosso redor, podemos, e não é raro nos sentimos assim, estar agitados interiormente e isso nos impedir de pensar, de refletir, de contemplar e, consequentemente, de nos relacionarmos com o Mistério.

 

Portanto, quero convidar os irmãos a uma profunda reflexão a respeito do silêncio interior, daquele que se conquista com o equilíbrio que é próprio da pessoa que consegue se conhecer e galgar uma postura de autodomínio. Acontece que o silencio interior quando alcançado provocará no ambiente externo uma mudança de postura. Significa dizer que aquele silencio exterior existirá sim, ele é importante, diria imprescindível, mas ao mesmo tempo ele será para alguns impulso para o silencio exterior e para outros transbordamento do silencio interior.

 

Cada um deve se perceber, cada pessoa deve nutrir uma postura critica a respeito de si mesma, esta é uma questão séria.  Afinal de contas, uma pessoa que pensa estar em silencio, só porque entra na capela para adoração ou para a oração do oficio, só porque não fala nada durante a celebração, mas passa toda a celebração ou momento de oração falando com seu olhar, com seu semblante, mostrando sua indignação ou sua inquietação, acaba por tirar a atenção ou o pior, causar um ruído na liturgia que atrapalha a comunicação entre os irmãos presentes e Deus.

 

É neste sentido que podemos entender porque o barulho causado pelo movimento das crianças durante as programações nunca nos atrapalha. A diferença entre a atitude inocente da criança e a consciente do adulto é que a criança faz barulho e o adulto causa ruídos.

Na vida comunitária, e no que quero chamar aqui de “CONVIVENCIA LITURGICA DIÁRIA” – que significa dizer que cada dia deve ser vivido como uma grande liturgia – é possível ser alegre, feliz, ter bom humor, e ao mesmo tempo discreto. Portanto, o silencio sagrado é possível.

 

Não apenas o silencio dos sons, mas o silencio dos gestos, do olhar, do corpo. Nosso corpo fala, nosso olhar fala, somos essencialmente comunicação, não há como querer que o corpo pare de falar, mesmo o corpo inerte fala e em algumas situações pode-se dizer até que gritam. No entanto, é possível que se aprenda a falar de forma serena com o olhar e com o corpo. Nossos gestos podem ser reflexos do nosso interior. Pessoas serenas alcançam a graça da contemplação.

 

Silenciar é colocar-se inteiramente nas mãos de seu Senhor. Confia e Ele agirá. Silenciar é mais que se calar. Silenciar é deixar-se conduzir pelo Mistério. O primeiro passo é, no entanto, aquietar-se, silenciar os pensamentos e o corpo.

 

 

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